Tuesday, 26 February 2008

tem o louco de roupa safári que desce a sua rua agora todo dia na primeira hora do dia logo depois do caminhão do lixo. ele fala alto e é agressivo tanto com pedestres quanto com os carros que passam. ele xingou um pouco por ela estar na janela e ela na janela pensou: o que leva um homem a enlouquecer assim? tem quem diga que é por causa de mulher. ela tem dificuldades em acreditar nessas desculpas esfarrapadas. mulher mais homem é coisa difícil mas loucura é coisa de cabeça fraca. do casamento ela só lembra das brigas. das discussões em monólogo. lembra que ela esbraveja cada vez mais alto na sua tentativa frustrada de ser ouvida por ele. o homem-rocha. o homem sem sentimentos. o homem de sangue frio. ele que mudou tanto desde aquele dia. ela se lembra daquele dia. dia estranho. o primeiro dia dos dias mais solitários de sua vida. sua lua-de-mel.
agora depois que ele foi embora e ela vive só com seus gatos ela se sente muito bem acompanhada. mas de tempos em tempos pedaços desta decepção enraizada despontam para superfície fazendo-a pensar e repensar. sua própria crueldade exposta. pura crueldade e falta de compaixão ou simplesmente uma defesa contra uma vida vegetativa? passa pela sua cabeça a possibilidade de estarem todos certos e de que ela não passe de uma gélida cabeça vazia aspirante a junkie com uma queda por uísque e drogas e qualquer frase que soe bem. provavelmente mais uma perdida. e ela nunca conseguiu se importar com nada além de fazer tudo para fazer tudo que ela tiver vontade. nunca se importou com o que pensam os burros os machões e os covardes.
ela é tudo isso e mais um pouco mas quando se olha no espelho tem orgulho do que vê. ninguém é perfeito. e ela é só uma guerreira fora do seu tempo. é o que é e o sabe. não engana. não mente. nem quer machucar ninguém. só está tentando seguir em frente de cabeça erguida mais uma vez.
das doze sementes que ela plantou vingaram sete. das sete ela deu duas e uma jogou fora e plantou tomates meses depois. os tomates estão despontando como feijões. das quatro plantas três são machos e uma é fêmea. as plantas crescem conforme o tamanho do vaso. um macho virou árvore e a fêmea está em flôr. sua sacada está perfumada. o crisântemo que ganhou em uma das idas e vindas da cabeça esculpida ela replantou em um vaso chinês lindo mas achou que ia morrer. não morreu e agora de cada galho podado e morto nasceu um ramo novo vivo e verde. e tirando o caminhão de concreto da maldita construção ao lado ela acha o seu canto bem aconchegante.

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